BRASÍLIA — O consumo no Distrito Federal continua presente, mas os clientes passaram a avaliar mais cada compra. Pesquisa de preços, espera por promoções e planejamento das parcelas fazem parte da rotina de quem tenta equilibrar o orçamento. Em alguns casos, a decisão é adiar a aquisição para outro mês.
Em agosto, 78,8% das famílias do Distrito Federal estavam endividadas, conforme a Peic-DF, da CNC. O índice corresponde a 833.598 famílias. Em julho, a proporção era de 79,9%.
Mais de 538 mil famílias tinham contas ou parcelas em atraso. Outras 224.097 afirmaram que não conseguiriam quitar os débitos vencidos no mês seguinte.
Crédito e controle das despesas
O cartão de crédito estava presente em 87,9% das famílias endividadas do Distrito Federal. O levantamento identifica a modalidade da dívida, mas não informa se a fatura é paga integralmente, parcelada ou levada ao rotativo.
José Aparecido Freire, presidente do Sistema Fecomércio-DF, afirmou que o crédito ajuda a movimentar o comércio e a viabilizar o consumo, mas deve estar de acordo com a renda das famílias. Para ele, a questão central é conseguir manter os pagamentos em dia.
No comércio, Ademar Lima observa consumidores que chegam interessados em mais de um produto e, depois de comparar preços e promoções, levam apenas um. Para o lojista de vestuário e moda, a demanda permanece, porém com mudanças: clientes substituem marcas, reduzem a quantidade comprada, aguardam descontos ou deixam a aquisição para depois.
“O que eu percebo é que o cliente continua querendo consumir, mas está tentando fazer o dinheiro render”, disse Ademar Lima.
O fotógrafo Marcus Mendonça relata que 99% de suas compras são feitas on-line. Quando o produto tem preço mais alto, ele passa meses pesquisando, compara valores e planeja as parcelas. Se identifica que gastou além do previsto, interrompe outras compras por alguns meses. Na avaliação dele, Brasília mantém procura por restaurantes, rodízios e outras experiências, além de promoções em alimentação, gasolina e cinema.
Tatiana Zedes também tenta seguir um planejamento, mas reconhece que lojas on-line, descontos e diferentes formas de pagamento podem favorecer compras por impulso. Após adquirir algo desnecessário, ela procura analisar a decisão.
Sinais de alerta e orientação
A terapeuta de comportamento Sabrina Maria explica que comprar pode estar associado a prazer, recompensa, alívio do estresse ou sensação de pertencimento. O consumo se torna um problema quando ultrapassa a capacidade financeira ou passa a ser usado repetidamente para lidar com emoções.
Entre os sinais de alerta estão sentir culpa depois das compras, esconder aquisições, perder o controle dos gastos e assumir dívidas para preservar determinado padrão. A pessoa também pode comprar para se sentir incluída, sem necessariamente tentar demonstrar riqueza.
No Procon-DF, a principal reclamação envolvendo cartões é a cobrança por produto ou serviço não contratado, não reconhecido ou não solicitado, com 344 registros. Em seguida aparecem tarifas ou valores não informados, com 179; cobranças indevidas ou abusivas, com 142; e clonagem, fraude, furto ou roubo, com 123.
O órgão não tem um filtro específico para apontar quantas queixas estão ligadas ao acúmulo de compras ou parcelas. Ainda assim, atende consumidores que buscam renegociar dívidas e orienta que despesas fixas e outros compromissos sejam considerados antes da contratação de uma nova parcela. A recomendação é evitar que os pagamentos de crédito ultrapassem 30% da renda familiar.
Para José Aparecido Freire, o consumidor brasiliense precisa definir o limite de comprometimento do orçamento. “Ele continua querendo consumir, mas pesquisa mais, compara preços e pensa duas vezes antes de comprometer o orçamento”.







