A estratégia de Flávio Bolsonaro para disputar a Presidência combina a defesa do legado político de Jair Bolsonaro com a tentativa de apresentar uma imagem mais moderada. O senador passou a destacar nas redes sociais diferenças em relação ao pai, como ter tomado vacina contra a covid-19 e defender pautas voltadas às mulheres e à economia do Carnaval.
O projeto eleitoral, porém, enfrenta novos questionamentos após a divulgação de conversas entre Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro. Os contatos tratariam de cobranças por aportes para um filme em homenagem a Jair Bolsonaro. Segundo as informações divulgadas, Vorcaro teria repassado ao menos R$ 61 milhões para a produção no ano passado, enquanto o acordo completo chegaria a R$ 134 milhões.
Flávio nega ilegalidades. Em nota, afirmou que buscava patrocínio privado para uma produção sobre a história do pai e disse não ter oferecido vantagens, intermediado negócios com o governo ou recebido dinheiro ou benefício.
A tentativa de construir uma nova imagem
Em vídeo publicado nas redes sociais em abril, Fernanda, mulher de Flávio, afirma que ele é um Bolsonaro moderado e diz ter contribuído para essa mudança. O conteúdo apresenta a rotina familiar do casal e das duas filhas, em uma tentativa de aproximar o senador de eleitores que rejeitam o estilo e as posições mais radicais do ex-presidente.
A pré-campanha também publicou mensagens sobre a importância do Carnaval, os feminicídios, a falta de creches e a trajetória de mulheres como Berta Lutz, Antonieta de Barros e Maria da Penha. A estratégia busca ampliar o apoio entre jovens, mulheres e setores da classe média.
Levantamentos do instituto Quaest indicaram crescimento de Flávio em um eventual segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva. Entre dezembro e maio, o senador chegou a 45% contra 38% de Lula entre eleitores de 16 a 34 anos. Na faixa de renda entre 2 e 5 salários-mínimos, alcançou 44%, ante 40% do atual presidente. Entre as mulheres, passou de 31% para 36%, ainda atrás de Lula, com 45%.
A pesquisa divulgada em 13/5 mostrou, no entanto, uma pequena reversão desses avanços, antes da divulgação das conversas com Vorcaro. O agregador de pesquisas citado no levantamento apontava empate entre Flávio e Lula em um eventual segundo turno.
Acusações antigas voltam à campanha
A relação com Vorcaro se soma às suspeitas de rachadinha no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e às acusações de vínculos com o miliciano Adriano da Nóbrega. O senador nega as denúncias e afirma que elas fazem parte de uma perseguição política contra sua família.
Flávio foi deputado estadual de 2003 a 2018. Em 2020, o Ministério Público afirmou que 12 funcionários fantasmas teriam recebido R$ 6,1 milhões, em valores da época, e que ao menos R$ 2 milhões teriam ido para a conta de Fabrício Queiroz. Outros R$ 2 milhões teriam sido disponibilizados à organização criminosa por meio de saques em espécie, segundo a denúncia.
A acusação também mencionou depósitos em dinheiro vivo e o pagamento de 169 boletos relacionados à escola das filhas de Flávio e ao plano de saúde da família, totalizando R$ 247 mil entre 2013 e 2018.
O senador chegou a ser denunciado em 2019 por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. O caso foi paralisado por decisões judiciais relacionadas ao foro privilegiado e à validade das provas. O Superior Tribunal de Justiça anulou decisões que haviam autorizado a quebra de sigilos bancário e fiscal. O Supremo Tribunal Federal também anulou relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras que haviam embasado a investigação.
O Ministério Público do Rio de Janeiro informou que o caso foi encerrado após o ministro Gilmar Mendes rejeitar, em fevereiro de 2025, um recurso que pedia a reabertura da investigação. Flávio sustenta que nunca respondeu criminalmente pelo caso.
Relações com Adriano da Nóbrega
Durante seus quatro mandatos na Alerj, Flávio homenageou policiais militares, entre eles Adriano da Nóbrega, em 2003 e 2005. O ex-policial foi expulso da corporação em 2014 e depois acusado de atuar como miliciano e de chefiar o Escritório do Crime. Adriano morreu durante uma operação policial na Bahia, quando estava foragido.
A mãe dele, Raimunda Magalhães, e a então esposa, Danielle Mendonça da Costa, trabalharam no gabinete de Flávio até 2018. O senador afirma que as duas foram mantidas porque desempenhavam bem suas funções e que não poderia ser responsabilizado por mudanças posteriores na conduta de pessoas que conhecia.
O deputado Marcelo Freixo, que conviveu com Flávio na Alerj, afirma que o senador coordenava reuniões políticas da família Bolsonaro no Rio de Janeiro. Para Freixo, Flávio representava o mesmo projeto político do pai, apesar de apresentar comportamento mais cordial.
Disputa pelo eleitorado
O Partido dos Trabalhadores passou a explorar a ideia de que não existe um Bolsonaro moderado. Um vídeo compartilhado pelo deputado Lindbergh Farias acusa Flávio de ser de extrema-direita e cita declarações sobre a possibilidade de uso da força para garantir anistia ou indulto a Jair Bolsonaro, caso o Supremo Tribunal Federal considere a medida inconstitucional.
O senador também enfrenta críticas dentro da direita. Após uma sessão que rejeitou a indicação de Jorge Messias ao STF, Flávio conversou com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, e depois afirmou que o governo Lula havia acabado. A vereadora Janaína Paschoal criticou sua atuação e disse que ele não seria moderado, mas fraco.
Para Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel, Flávio conseguiu se consolidar rapidamente entre eleitores bolsonaristas e antipetistas, mas ainda precisa conquistar uma parcela estimada entre 10% e 12% do eleitorado que não se identifica automaticamente com nenhum dos dois campos. Na avaliação do analista, as denúncias de corrupção e a relação com Vorcaro dificultam a tentativa de reduzir a rejeição associada ao sobrenome Bolsonaro.








