Uma mensagem apreendida pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro registra um pedido de reunião feito por Flávio e Eduardo Bolsonaro para tratar do filme Dark Horse. O contato ocorreu no mesmo dia em que Eduardo anunciou que havia decidido morar nos Estados Unidos.
A mensagem foi enviada pelo publicitário Thiago Miranda, que intermediava as tratativas, às 9h34 de 18 de março de 2025. O conteúdo informava a Vorcaro: “Flavio B e Eduardo querem marcar uma agenda com vc. Filme.” O relatório da PF não esclarece se o banqueiro respondeu nem se a reunião foi realizada.
Às 11h37 daquele dia, Eduardo publicou uma convocação para uma live na qual anunciaria a decisão de permanecer nos Estados Unidos. Ele está no país desde 27 de fevereiro de 2025.
Repasses para o filme
O relatório integra o inquérito que apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas ao financiamento da produção. Flávio e Eduardo estão entre os investigados. A PF também busca esclarecer se parte dos recursos foi usada para custear a permanência de Eduardo nos Estados Unidos.
O primeiro repasse determinado por Vorcaro ocorreu em 13 de fevereiro de 2025, no valor de US$ 2 milhões. Outros dois pagamentos foram registrados em 24 de março: um de US$ 2 milhões e outro de US$ 1,66 milhão.
O financiamento previa 14 parcelas: as duas primeiras seriam de US$ 2 milhões, em janeiro de 2025, e as outras 12, de US$ 1,66 milhão. A PF identificou ainda quatro repasses de US$ 1,66 milhão em 2025: duas transferências em 25 de abril, uma em 29 de maio e outra em 16 de setembro.
Os valores foram enviados pela Entre Investimentos ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo. Antônio Carlos Freixo Júnior, dono da Entre Investimentos, confirmou em delação premiada ter enviado US$ 12 milhões, equivalentes a R$ 72 milhões, para o fundo.
Orientações e versões
Em 21 de março de 2025, três dias depois do pedido de reunião e do anúncio de Eduardo, Thiago Miranda encaminhou a Vorcaro uma captura de tela atribuída a Eduardo. Conforme o relatório, o conteúdo trazia orientações sobre a gestão dos recursos nos Estados Unidos e mencionava a disponibilidade de Altieres Santana, gerente do Havengate.
A demora nos pagamentos levou Flávio a cobrar Vorcaro. Segundo o relatório, ele inicialmente negou ter relação com o banqueiro e depois afirmou que o contato ocorreu por causa do atraso das parcelas necessárias à conclusão do filme. Em mensagens de 28 de janeiro de 2025, Vorcaro havia classificado um repasse como o mais importante e afirmado que ele não poderia falhar.
Flávio negociou US$ 24 milhões, equivalentes a R$ 134 milhões, com Vorcaro para financiar o filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao pedir a abertura da investigação, a PF apontou a necessidade de esclarecer a origem, o trânsito, a destinação e os beneficiários finais dos valores.
Entre os elementos citados estão o contrato com aportes considerados elevados em relação aos custos de produções brasileiras, o fluxo de pagamentos, a orientação para realizar transferências por meio da Entre Investimentos, as tratativas sobre a estrutura financeira e as cobranças feitas por Flávio. O documento foi tornado público por decisão do ministro André Mendonça, do STF.
Eduardo negou ter se encontrado ou conversado com Vorcaro e rejeitou relação entre sua permanência nos Estados Unidos e o dinheiro do filme. A equipe de Flávio não comentou o assunto. Ele afirma não ter cometido irregularidades e defende o fim do sigilo da investigação.







