RIO DE JANEIRO — A trajetória de Zuenir Ventura foi marcada pela combinação entre jornalismo, literatura e defesa dos direitos humanos. O jornalista e escritor morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela Academia Brasileira de Letras (ABL).
Nascido em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, no sul de Minas Gerais, Zuenir Carlos Ventura passou a infância em Ponte Nova. Aos onze anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo, onde trabalhou em diferentes comércios, acompanhou o pai como pintor de paredes e jogou basquetebol. Como bolsista, começou a dar aulas e identificou sua vocação para o ensino.
Formação e jornalismo
Mais tarde, foi para o Rio de Janeiro, onde buscou o diploma do magistério e cursou letras neolatinas na atual UFRJ. Entre seus professores estavam Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima.
Ainda estudante, começou a carreira como arquivista na Tribuna da Imprensa, jornal de Carlos Lacerda. No começo dos anos 1960, fez uma formação em jornalismo em Paris. Depois, trabalhou no Correio da Manhã, n’O Cruzeiro, na Fatos e Fotos, na Visão, na Veja, na Isto É e no Jornal do Brasil.
Conhecido como Mestre Zu por ex-alunos e repórteres, formou jornalistas na universidade e nos veículos em que atuou. Em uma contribuição ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, afirmou: “Nunca tive medo de deixar um jornal e ficar desempregado”.
Livros e reconhecimento
A obra de Zuenir abordou temas como a juventude dos anos 1960, o combate à ditadura no Brasil, a exploração da Amazônia e a violência relacionada ao combate às drogas. Em “1968 - O Ano que não Terminou”, retratou o período de ebulição política e social. Na década de 1980, acompanhou no Acre o caso Chico Mendes. Mais tarde, escreveu “Cidade Partida”, depois de acompanhar a vida em Vigário Geral nos meses posteriores à chacina dos anos 1990 na comunidade carioca.
Pela série “O Acre de Chico Mendes”, publicada no Jornal do Brasil, recebeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog em 1989. “Cidade Partida” ficou em segundo lugar na categoria reportagem do Jabuti de 1995. Em 2008, dividiu com Caco Barcellos, Henfil, José Hamilton Ribeiro e Ricardo Kotscho o Troféu Especial de Imprensa ONU, concedido a profissionais que se destacaram na defesa dos direitos humanos na mídia.
Em 2005, lançou “Minhas Histórias dos Outros”, livro ampliado posteriormente com relatos sobre pessoas como Glauber Rocha, Betinho e Carlos Drummond de Andrade. Também escreveu “Sagrada Família”, de 2012, romance inspirado em memórias da infância e da adolescência.
Academia Brasileira de Letras
Zuenir ingressou na Academia Brasileira de Letras em 2015, na cadeira que havia pertencido a Ariano Suassuna. Durante a pandemia de Covid-19, quando estava confinado em seu apartamento, disse sentir falta das reuniões da instituição e descreveu o ambiente como “agradável e tem muito humor”.
Em 1962, conheceu a jornalista Mary Akiersztejn, com quem se casou. Em 1968, os dois foram presos e levados ao Dops do Rio. Mary permaneceu detida por um mês, e Zuenir, por três, parte do período junto dos escritores Ziraldo e Hélio Pellegrino.
Em 2011, ao prestar depoimento ao Museu da Imagem e do Som, ele relembrou o período na prisão. Em maio de 2022, contou ao jornal O Globo que havia feito uma pausa na escrita.
Zuenir deixa a mulher, Mary, os filhos Elisa e Mauro e os netos Alice e Eric.








