A democracia coloca seus participantes diante de um teste que vai além da escolha feita nas urnas: aceitar que pessoas com posições contrárias tenham o mesmo direito de decidir o futuro. O desafio aparece quando o resultado contraria a expectativa e exige lidar com a derrota.
Votar permite expressar preferências, reunir pessoas com visões semelhantes e buscar transformar essa identificação em poder. O resultado, porém, exige reconhecer que vencedores e derrotados continuam integrando o mesmo sistema político. Essa aceitação é uma das condições para que a democracia funcione, mesmo sendo um sistema imperfeito e dependente de limites.
A aplicação das regras revela outra dificuldade. Uma norma tende a parecer razoável quando atinge quem pensa de maneira diferente e excessiva quando alcança o grupo com o qual há identificação. A regra não se altera; muda a posição de quem a avalia. Por isso, a coerência pode ser testada pela pergunta: a mesma norma seria defendida se fosse aplicada ao próprio grupo?
O julgamento sobre aliados e adversários
A proximidade com um grupo interfere na avaliação de comportamentos e argumentos. Há uma busca por justificativas mais favoráveis para aquilo em que já se acredita, além de maior tolerância com contradições dos aliados e mais atenção às falhas dos adversários.
Esse mecanismo também cria exceções morais. Uma pessoa pode considerar aceitável determinada conduta por acreditar que defende a democracia; um grupo pode alegar que protege direitos; uma instituição pode justificar suas ações pela intenção de impedir algo pior. O princípio, nesse caso, passa a ser usado para validar o próprio pertencimento.
Também existe uma diferença na forma como cada julgamento é percebido. Cada pessoa conhece suas razões, informações, dúvidas e o caminho que a levou a uma conclusão. Sobre o outro, geralmente se observa apenas o resultado. Assim, o próprio raciocínio parece complexo, enquanto a conclusão alheia pode parecer simplificada ou inexplicável.
Diante de uma posição oposta, a discordância pode dar lugar à tentativa de encontrar uma causa para ela: falta de informação, influência excessiva, interesse ou incapacidade de perceber o que parece evidente. O resultado é a dificuldade de reconhecer princípios quando eles favorecem quem está do outro lado.
A democracia pode ser entendida, assim, como uma construção social criada para conter comportamentos que não surgem naturalmente. Seu funcionamento depende de aplicar ao outro a mesma regra que se deseja ver aplicada a si.








