BRASÍLIA — Funcionários e ex-funcionários da Embaixada da Grécia em Brasília denunciaram ao Sindicato Nacional dos Servidores de Embaixadas (Sindnações) episódios de assédio moral, desvios de função e falta de equipamentos de proteção durante a gestão da embaixadora Eleni Lianidou. O sindicato levou as reclamações ao Ministério Público do Trabalho (MPT) e ao Itamaraty.
Lianidou assumiu a representação diplomática em 16 de janeiro, após uma carreira de 35 anos na diplomacia. De acordo com os relatos, as atividades de zeladoria e manutenção passaram a incluir tarefas além das atribuições dos funcionários, com episódios de gritos e constrangimentos.
Relato sobre soda cáustica
Uma das ex-funcionárias, identificada como Rosa, afirmou que foi orientada a limpar o chão da embaixada com soda cáustica, sem equipamentos de proteção. O episódio teria ocorrido em 10 de março. Ela disse que, ao final do dia, sentiu falta de ar, ardência e coceira nas pernas e precisou pagar uma consulta particular no dia seguinte.
Segundo Rosa, o produto foi espalhado no chão e a embaixadora determinou que ela fizesse a limpeza. A ex-funcionária afirmou ainda que usava roupas de tecido comum e chinelos. As normas NR-15 (anexo nº 13) e NR 6, do Ministério do Trabalho, citadas no caso, estabelecem exigências relacionadas ao trabalho com soda cáustica e ao fornecimento de equipamentos de proteção individual.
Entre os equipamentos mencionados estão luvas de PVC ou nitrila, óculos de proteção com vedação, máscara facial com filtro químico, avental e botas impermeáveis.
Demissões e tarefas em evento
Rosa também relatou que foi encarregada de preparar um jantar organizado pela embaixada em maio, além de cuidar da decoração e da arrumação do local. Ela afirmou que pediu pagamento adicional pelo trabalho, mas teria recebido como resposta que deveria cozinhar sem remuneração extra. Poucos dias antes do evento, encerrou um ciclo de 18 anos no local.
Uma funcionária administrativa disse que precisou organizar a comida apesar de ter alergia a frutos do mar. Ela contou que serviu uma sopa e teve uma reação alérgica, com necessidade de tomar anti-histamínico. Durante o jantar, segundo o relato, Lianidou teria ido à cozinha e gritado com os funcionários por causa da demora no serviço.
Um trabalhador contratado para o evento afirmou que foi constrangido após uma colher de café de prata desaparecer. Ele e outro garçom teriam sido orientados a mostrar suas bolsas à secretária da embaixadora.
Reclamações chegaram à Grécia
Além dos casos relatados, o presidente do Sindnações, Raimundo Oliveira, informou que há denúncias sobre proibição do uso de banheiros, desrespeito ao horário de almoço e retirada de eletrodomésticos usados pelos empregados, incluindo uma geladeira coletiva para guardar marmitas.
Em junho, o embaixador grego na Argentina, Efstathios Paizis Paradelis, foi ao Brasil para ouvir cerca de dez funcionários e ex-funcionários da embaixada, além de dois servidores de ministérios. Em agosto, voltou para colher o depoimento de Lianidou, que se recusou a falar.
Em um e-mail enviado a embaixadas europeias no Brasil, a embaixadora afirmou se sentir perseguida e com medo. Ela também disse nunca ter enfrentado situação semelhante durante sua carreira diplomática. Lianidou não respondeu aos pedidos de entrevista.
As reclamações também foram encaminhadas ao Ministério das Relações Exteriores da Grécia. O MPT emitiu uma nota pedindo a apuração dos fatos. O Itamaraty, a Embaixada da Grécia e o governo grego não responderam aos questionamentos até a publicação das informações.







