NIQUELÂNDIA — A exploração de ouro no norte de Goiás levou milhares de pessoas escravizadas para as áreas de mineração, mas também provocou fugas e a formação de comunidades de resistência. Entre elas estava o Quilombo do Muquém, registrado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) entre os quilombos históricos do estado e localizado próximo à atual Niquelândia.
A documentação sobre o grupo é limitada. Os registros permitem relacionar o quilombo ao território e ao contexto da mineração, mas não informam quantas pessoas viviam na comunidade, quem eram seus moradores ou por quanto tempo o núcleo permaneceu organizado.
Mineração e escravização no norte goiano
A atividade mineradora das chamadas Minas dos Goyazes ganhou força nas primeiras décadas do século XVIII. O trabalho de pessoas escravizadas sustentava a retirada do ouro e também atividades como agricultura e pecuária, necessárias aos arraiais mineradores.
Dados reunidos em pesquisa da UFG apontam que, em 1736, havia 10.265 pessoas escravizadas registradas em Goiás. Desse total, 1.196 estavam nas minas do Tocantins. A distribuição incluía ainda 4.021 escravizados nas minas de Sant’Anna e 1.366 em Crixás.
A historiografia reunida pela universidade registra que praticamente não havia arraial em Goiás sem a presença ou a ameaça de quilombos. A série histórica indica cerca de 10 mil escravizados em 1735, 15.321 em 1741 e 17.154 em 1749. Em 1804, o recenseamento da Capitania registrou aproximadamente 20.650 negros em cativeiro, equivalentes a 41% da população.
As condições de trabalho incluíam longos períodos em rios, escavações e minas. Nesse cenário, fugir era uma das formas de resistência. As serras e áreas afastadas podiam dificultar a captura e oferecer condições para a formação de moradias, produção de alimentos e organização comunitária.
A formação do Quilombo do Muquém
Uma referência preservada pela historiadora Nilza Botelho Megale e reproduzida pelo Santuário Diocesano de Nossa Senhora d’Abadia do Muquém relaciona a formação do quilombo à fuga de pessoas escravizadas das minas de Cocal, Água Quente, Traíras e São José do Tocantins. Segundo essa narrativa, os fugitivos procuraram as serras da região e formaram o Quilombo do Muquém.
A UFG inclui Muquém em diferentes levantamentos sobre os quilombos históricos de Goiás. O nome aparece ao lado de Acaba Vida, Ambrósio, Cedro, Forte, Kalunga e Mesquita. Outro trabalho acadêmico relaciona Muquém, Acaba Vida e Papuã à região de Niquelândia.
O caso de Acaba Vida também é citado em registro de 1879. Segundo o levantamento, o quilombo ocupava terras férteis na mesma região. A referência indica que a presença de comunidades quilombolas atravessou diferentes períodos da história local, inclusive após o declínio do grande ciclo minerador.
A documentação disponível sobre Muquém foi produzida principalmente por autoridades, proprietários, religiosos e agentes ligados ao controle da ordem escravista. Por isso, há mais informações sobre ações de captura do que sobre a rotina dos moradores. A tradição histórica reproduzida pelo Santuário informa que uma companhia de homens armados, comandada por um capitão do mato, capturou os quilombolas.
O nome permanece no território
Muquém continua identificando uma localidade de Niquelândia. O município possui 9.846 quilômetros quadrados e população de 34.964 habitantes no Censo 2022. O distrito de Muquém é situado pela UFG a cerca de 45 quilômetros da sede municipal.
Na região também está Vargem Grande do Muquém, comunidade reconhecida atualmente como quilombola em Niquelândia. Uma pesquisa de mestrado da Universidade de Brasília analisou a relação dos moradores com o território, os recursos naturais e a conservação do Cerrado, além do processo de autorreconhecimento territorial entre 2020 e 2023.
As fontes não permitem afirmar que Vargem Grande do Muquém seja a continuação direta do quilombo colonial ou que seus moradores descendam daquele núcleo. Essa relação exigiria pesquisa genealógica, documental e de história oral específica. O que os estudos indicam é a permanência da identidade quilombola no território de Niquelândia.
Em 2024, Vargem Grande do Muquém esteve entre as comunidades atendidas em uma operação do Governo de Goiás voltada a populações quilombolas do norte do estado. Em 2026, Iphan e Incra incluíram a comunidade entre seis territórios quilombolas goianos beneficiados por uma parceria para regularização fundiária e preservação cultural.
O acordo prevê levantamentos arqueológicos e antropológicos. A análise de vestígios de ocupação, objetos, caminhos e formas de uso do território pode complementar os documentos escritos e contribuir para os processos de reconhecimento territorial. A iniciativa não permite afirmar que serão encontrados vestígios do antigo Quilombo do Muquém, mas amplia as formas de investigar a presença quilombola na região.
A história do Muquém integra o ciclo do ouro por uma perspectiva que vai além das jazidas e dos arraiais. As pessoas escravizadas foram fundamentais para a economia mineradora, mas também criaram estratégias de sobrevivência, fugiram e organizaram comunidades. Embora os nomes e detalhes da vida da maioria dos moradores não tenham sido preservados, a existência do quilombo está registrada entre as experiências históricas de resistência negra em Goiás.







