A antiga Estação Ferroviária foi posicionada na extremidade norte da Avenida Goiás porque a área destinada à ferrovia já fazia parte do projeto original de Goiânia. O eixo foi planejado para ligar a Praça Cívica, centro político-administrativo da nova capital, ao setor ferroviário, associado ao transporte de pessoas, mercadorias e ao desenvolvimento econômico.
A configuração, ainda perceptível no Centro, explica por que o prédio da estação parece encerrar visualmente a avenida. A relação entre os dois pontos foi definida antes da construção do edifício que existe atualmente.
Um eixo previsto antes dos trilhos
O primeiro plano urbanístico de Goiânia foi elaborado pelo arquiteto e urbanista Attílio Corrêa Lima. O projeto separava áreas destinadas à administração, ao comércio, à moradia e à indústria, usando grandes avenidas para organizar o núcleo urbano.
A Praça Cívica ocupava a posição de maior destaque. A Avenida Goiás avançava em direção ao norte e terminava, em seu eixo, na área reservada à futura ferrovia. A zona industrial também foi planejada nas proximidades, enquanto o centro comercial se concentraria principalmente no encontro das avenidas Goiás e Anhanguera.
A dissertação “Avenida Goiás: lugar, monumento e memória”, desenvolvida na Universidade Federal de Goiás, identifica a ligação entre a Praça Cívica e a Estação Ferroviária como uma das principais composições do plano original. A pesquisa também descreve a via como uma avenida-jardim, com espaço para circulação, passeios públicos e manifestações cívicas.
O desenho aproveitava a topografia do terreno. A Praça Cívica foi instalada em uma área elevada, e a Avenida Goiás seguia em direção à parte mais baixa. Essa composição destacava visualmente o centro administrativo e colocava a ferrovia na outra extremidade do sistema urbano.
Poder político e transporte
Na Praça Cívica estavam o Palácio das Esmeraldas e outros edifícios ligados à administração estadual. No extremo oposto, a ferrovia representava a conexão de Goiânia com outras regiões. A avenida reunia, em uma mesma perspectiva, o poder político, o comércio e o transporte.
Quando a cidade começou a ser planejada, nos anos 1930, os trilhos ainda não haviam chegado. A ferrovia, porém, já era considerada um elemento importante para a organização da futura capital. A construção da estação ocorreu posteriormente, e a Prefeitura utiliza 1950 como uma das referências históricas para a inauguração do equipamento.
A chegada da ferrovia transformou em realidade uma função prevista no planejamento. Quem desembarcava na estação encontrava a Avenida Goiás à frente e podia seguir pelo eixo em direção à área comercial, ao cruzamento com a Avenida Anhanguera e, mais adiante, à Praça Cívica.
Uma perspectiva que permaneceu
A posição da estação fez dela um ponto focal da perspectiva da avenida. Propostas posteriores de requalificação do Centro trataram a Praça Cívica, a Avenida Goiás e a Praça do Trabalhador como partes articuladas de um mesmo conjunto.
Com o crescimento de Goiânia, a via também se tornou espaço de comércio, lazer e convivência. Pesquisas sobre a memória urbana registram o footing, prática em que jovens caminhavam pela avenida para conversar, observar o movimento e paquerar. Na década de 1940, essa atividade ocorria especialmente nas proximidades do Grande Hotel e da antiga Brasserie.
A ferrovia perdeu importância com o avanço do transporte rodoviário, e o prédio deixou de exercer sua função original. A estação, entretanto, permaneceu diante da Avenida Goiás, foi reconhecida como patrimônio histórico e passou a integrar o conjunto Art Déco associado aos primeiros anos da capital.
Mesmo com as mudanças no trânsito, no comércio e na paisagem, a sequência entre Praça Cívica, Avenida Goiás e antiga Estação Ferroviária continua legível. O edifício atual foi construído depois do plano de Attílio Corrêa Lima, mas consolidou fisicamente a perspectiva prevista desde o início. A avenida não termina na estação por acaso: seu eixo nasceu considerando a área ferroviária como uma de suas referências finais.







