GOIÂNIA — Em agosto de 1961, o Palácio das Esmeraldas e a Praça Cívica foram transformados em posições de defesa durante a crise provocada pela renúncia do presidente Jânio Quadros. Barricadas controlavam os acessos, policiais, voluntários e soldados circulavam armados, e canhões foram instalados no palácio e em edifícios próximos. Um gerador também foi levado ao pátio para manter o fornecimento de energia caso o abastecimento fosse interrompido.
A mobilização ocorreu porque setores militares se opunham à posse do vice-presidente João Goulart. O governador Mauro Borges apoiava a Campanha da Legalidade e defendia o cumprimento da Constituição. Em 30 de agosto, divulgou um manifesto nacional favorável à posse de Jango.
A ameaça de uma ação militar
A decisão de preparar a defesa foi tomada depois da circulação da informação de que uma Brigada de Paraquedistas havia desembarcado em Brasília. Segundo pesquisa da Universidade Estadual de Goiás (UEG), a hipótese era que o grupo pudesse avançar até Goiânia, ocupar a Praça Cívica e tomar o Palácio das Esmeraldas.
O estudo não encontrou fontes fidedignas que comprovassem uma ordem efetiva para atacar a capital. A possibilidade foi interpretada como ameaça real, guerra psicológica ou resultado de informações desencontradas durante a crise.
O trânsito de veículos nos arredores do centro administrativo foi restringido. À noite, pedestres também tiveram a circulação limitada, com exceção de pessoas credenciadas. Metralhadoras foram usadas na vigilância das barricadas, enquanto canhões instalados sobre a marquise do palácio e em construções próximas formavam uma estrutura de defesa antiaérea.
A preparação chegou às rodovias de acesso a Brasília. Na operação chamada “Missão Doutor Irineu”, militares foram deslocados para Itumbiara e Cristalina, e explosivos foram colocados nas bases de pontes. O objetivo era interromper a passagem de uma eventual coluna militar. A ação esperada não ocorreu, e nenhuma ponte foi destruída.
Rádio e dúvida sobre o governador no telhado
Mauro Borges usou diariamente a Rádio Brasil Central para informar a população sobre a crise e defender sua posição política. Coronel da reserva do Exército, ele havia sido eleito governador em 1960 e assumiu protagonismo nacional ao apoiar a posse constitucional de João Goulart.
Uma versão posterior afirma que Borges teria subido armado ao telhado do Palácio das Esmeraldas. Os registros confirmam a presença de homens armados, barricadas e equipamentos de defesa, mas não comprovam que o governador tenha ocupado pessoalmente o local.
A crise foi resolvida por meio de um acordo político. João Goulart retornou ao Brasil e assumiu a Presidência em setembro de 1961, após a implantação do parlamentarismo, que reduziu temporariamente os poderes presidenciais. O confronto temido em Goiás não aconteceu.
Em 1964, Mauro Borges inicialmente apoiou o movimento que derrubou Jango. Meses depois, passou a sofrer pressão do novo regime e foi afastado após uma intervenção federal em Goiás. O episódio encerrou seu governo em novembro daquele ano.







