A educação superior transformou a trajetória de Douglas, que saiu da periferia de São Paulo, formou-se em Ciência da Computação pela USP e se prepara para fazer um MBA em inteligência artificial em Chicago, nos Estados Unidos. Ele será bolsista do curso.
Durante o ensino médio, Douglas estudou em uma escola técnica de Guaianases, onde se interessou por tecnologia, e fez o curso técnico de informática na ETEC de Itaquera. Para se preparar para o vestibular, frequentou aos sábados o cursinho popular Mafalda e também participou de uma iniciativa da pró-reitoria da USP destinada a alunos de escolas públicas que se destacavam na Fuvest como treineiros. O programa oferecia bolsa de R$ 300, vale-transporte e alimentação.
Em 2014, foi aprovado em Ciência da Computação na USP de São Carlos. Entre os 100 estudantes da turma, era o único que havia feito todo o ensino fundamental e médio em escola pública e entrado diretamente na universidade. Para ele, o alojamento e o restaurante universitário gratuitos foram decisivos para a permanência no curso.
Na família, ninguém tinha diploma. Ainda assim, o pai propunha desafios de lógica e matemática, enquanto a mãe procurava cursos gratuitos e o matriculou em espanhol. A falta de informação sobre as universidades públicas apareceu quando Douglas contou ao pai que pretendia prestar vestibular para a USP e ouviu a pergunta sobre quanto custaria estudar ali.
“Quando você é da periferia ou da primeira geração a ter chance de estudar, às vezes te falta até o acesso à informação”, afirmou Douglas.
Depois da graduação, ele fez mestrado na USP e agora se prepara para a mudança para Chicago. Seu percurso também incentivou a mãe a voltar a estudar. Ela havia frequentado a escola somente até a 4ª série, atual 5º ano, no sertão da Bahia. Primeiro, concluiu o ensino fundamental e o médio pelo Ensino de Jovens e Adultos (EJA). Durante a pandemia, fez o vestibulinho da ETEC e terminou um curso técnico em administração.
Douglas afirma que a educação é o principal caminho para transformar uma realidade. Para ele, o fato de a mãe ter realizado o sonho de estudar representa um ciclo de apoio entre os dois.
A experiência se aproxima da história de Ellen Menezes, de 25 anos, estudante do último ano de Pedagogia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Filha de pais vindos da Bahia e com ensino fundamental incompleto, ela também é a primeira pessoa da família a chegar ao ensino superior. A mãe vende milho e pamonha, e o pai trabalha como motorista de aplicativo.
Ellen ingressou na Unicamp pelo sistema de cotas étnico-raciais. Inicialmente aprovada em Ciências Sociais, prestou o vestibular novamente depois de concluir que queria atuar na educação infantil. Ela atribui às ações afirmativas mudanças no perfil dos alunos das universidades públicas e nos debates acadêmicos.
Com a conclusão da graduação próxima, Ellen planeja prestar concurso para dar aulas na rede pública e conciliar o trabalho com estudos de mestrado e doutorado. “A educação tem um poder transformador que me levou para um lugar totalmente diferente de onde meus pais vieram, e é isso que quero proporcionar a outras crianças”, disse.







