A solidão atinge 20,9% dos adolescentes de 13 a 17 anos, o equivalente a cerca de um em cada cinco jovens, segundo relatório de 2025 da Comissão de Conexão Social da Organização Mundial de Saúde (OMS). Diante desse cenário, governos, escolas e especialistas buscam ampliar a convivência presencial e reduzir o isolamento entre crianças e adolescentes.
Na avaliação da psicóloga Kamila Vilela, a adolescência aumenta a necessidade de pertencimento. Com o crescimento, a família deixa de concentrar a vida social e os jovens passam a procurar vínculos com outras pessoas da mesma faixa etária. Ao mesmo tempo, a rotina mediada por telas pode dificultar a criação de relações presenciais.
“É uma geração hiperconectada, mas sem conexão real”, afirma Kamila. Para ela, atividades coletivas, como jogos de tabuleiro e esportes, podem estimular a interação.
A psicóloga e mestre em Psicologia Clarisse Timbó também relaciona a socialização à formação da identidade. As relações, os grupos e os ambientes de pertencimento influenciam as crenças que os adolescentes constroem sobre si mesmos.
Medidas adotadas em outros países
O Japão aprovou, em 2024, uma lei para enfrentar a solidão e o isolamento. A norma prevê estruturas locais de apoio, identificação de pessoas em situação de vulnerabilidade e ampliação das oportunidades de conexão. Em abril de 2024, entrou em vigor a Lei de Promoção de Medidas contra a Solidão e o Isolamento, com previsão de conselhos regionais para localizar jovens isolados e agir preventivamente.
Na Inglaterra, o sistema público de saúde, o National Health Service (NHS), utiliza a chamada prescrição social. Pessoas em situação de solidão podem ser encaminhadas a profissionais que indicam grupos de caminhada, atividades artísticas, esportes, jardinagem, voluntariado e outros serviços de acordo com suas necessidades.
Em julho de 2026, novas regras para serviços de Inteligência Artificial (IA) que simulam interações humanas e afetivas passaram a proibir o acesso de menores de idade a companheiros virtuais e relações íntimas simuladas por IA. As empresas também devem criar mecanismos para evitar dependência emocional e prejuízos às relações interpessoais no mundo real.
Outra estratégia nacional de combate à solidão prevê a ampliação de espaços de encontro e participação social. Entre as ações está o apoio a projetos em clubes esportivos, com uso da prática coletiva para aproximar pessoas.
Bibliotecas públicas de Aarhus, Albertslund e Roskilde oferecem acesso gratuito à Human Library, projeto criado em Copenhague. A iniciativa permite que participantes conversem ao vivo com voluntários sobre identidade, deficiência, religião e saúde mental.
Interesses em comum
O clube Leitoras de Coragem promove encontros presenciais e se tornou espaço de troca e amizades entre jovens. As estudantes Bruna Tavares, 17 anos, Mariana Dell’Antonio, 17, e Sofia Esperanza, 18, relatam que os encontros ajudam a conhecer pessoas e a conversar com mais confiança.
Mariana avalia que a literatura funciona como uma porta de entrada para as conversas. Sofia afirma que as experiências presenciais tendem a marcar mais do que aquelas vividas pelo celular.
A psicóloga Silvia Missi recomenda atenção aos sinais de isolamento. Segundo ela, evitar uma festa pode trazer alívio imediato ao adolescente, mas esse alívio reforça a ideia de que é melhor não participar de situações semelhantes, tornando novas aproximações mais difíceis.








