O ex-banqueiro Daniel Vorcaro transferiu US$ 1,6 milhão para o filme Dark Horse em setembro de 2025, poucos dias depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), atualmente candidato à Presidência, cobrar parcelas que estavam atrasadas.
A existência desse pagamento foi divulgada nesta terça-feira (1º). A informação foi confirmada.
O novo repasse se acrescenta a outros seis — dois de US$ 2 milhões e quatro de US$ 1,6 milhão — realizados até maio de 2025. Esses pagamentos já tinham sido divulgados em maio deste ano e, juntos, somavam R$ 61 milhões.
"Com esse novo pagamento, que até agora era desconhecido, o total enviado por Vorcaro para a cinebiografia de Bolsonaro passou de 10,6 para 12,3 milhões de dólares — o que, na cotação da época, equivalia a mais de 65 milhões de reais", afirma a publicação que revelou o novo repasse.
A informação consta em um dos inquéritos da Polícia Federal (PF) que investigam o caso. O pagamento adicional foi localizado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Flávio vinha dizendo que o último repasse realizado por Vorcaro tinha ocorrido em maio de 2025, versão que agora foi contrariada pela PF. "Olha só. O último pagamento que ele fez [...] foi em maio de 2025", afirmou o senador em entrevista quando o caso veio a público.
Conforme as investigações, os valores enviados por Vorcaro ao filme passaram pela Entre Investimentos e Participações, empresa ligada a um aliado do ex-banqueiro. Depois, a Entre transferia os recursos para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, controlado por um advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. O fundo faria o repasse à produtora Go Up.
"Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. [...] Eu sei que você está passando por um momento dificílimo aí também, essa confusão toda, você sem saber exatamente como é que vai caminhar isso tudo. E apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?", disse Flávio.
O pagamento de setembro ocorreu oito dias após Flávio cobrar as parcelas em atraso. Pelo acordo inicial, os valores poderiam chegar a R$ 134 milhões.
Valor pode ser maior
O montante enviado por Vorcaro ao filme Dark Horse pode, ainda, ser superior. Foi localizado um trecho inédito de uma conversa entre o ex-banqueiro e o publicitário Thiago Miranda, que participou da captação de recursos para a produção.
Em uma mensagem enviada ao banqueiro em 22 de outubro de 2025, Miranda perguntou: “Consegue liberar as parcelas do filme?”.
Vorcaro respondeu: "Sim. Liberei mais uma hoje".
Na sequência, Miranda afirmou: "Vou avisá-los. Flávio disse que iria te ligar tb [também]".
A PF informou que não há outros pagamentos registrados no informativo financeiro do Coaf. Isso, entretanto, não elimina a possibilidade de a transferência ter sido realizada em 22 de outubro e não ter sido comunicada ao órgão de fiscalização.
"Se esse outro pagamento de 1,6 milhão de dólares foi efetivamente realizado como afirmou o banqueiro, o total desembolsado por ele vai para 14 milhões de dólares, ou 72 milhões de reais", afirma a publicação.
Na chegada ao Senado nesta terça-feira (1º), Flávio foi questionado por jornalistas sobre o novo repasse. O senador declarou que a questão deveria ser esclarecida pela produtora do filme.
"Bom, essas informações eu não tenho como saber porque eu não trato disso, gente. Tem que perguntar para a produtora, desculpa. Esse assunto eu não tenho como aprofundar. Tem que perguntar para a produtora."
O financiamento do filme sobre Bolsonaro é alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF).
O primeiro, relatado pelo ministro André Mendonça, examina os repasses feitos por Vorcaro: as circunstâncias, a origem dos recursos, o valor exato e o destino final do dinheiro. Os investigadores suspeitam que uma parte dos recursos não tenha sido aplicada no filme.
O segundo inquérito, sob relatoria do ministro Flávio Dino, apura se a produtora Go Up utilizou emendas parlamentares para financiar a produção.
Também existe uma investigação em São Paulo, conduzida pela Polícia Civil, sobre um contrato de mais de R$ 150 milhões firmado entre a Go Up e a prefeitura para instalar pontos de wi-fi em bairros da periferia. O acordo não foi cumprido integralmente, e há suspeitas de desvio de parte dos valores.







