A aplicação de um biofertilizante produzido a partir do bagaço de uva elevou a concentração de betacaroteno e de compostos antioxidantes em flores de calêndula pôr do sol (Calendula officinalis L.). No verão, o betacaroteno chegou a 80,97 miligramas por 100 gramas de flor liofilizada, enquanto a atividade antioxidante passou de 1.300 micromoles de TEAC por 100 gramas.
O resultado foi obtido em um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O trabalho foi publicado na revista científica ACS Omega e avaliou o digestato, material formado pela decomposição do bagaço em um processo realizado por microrganismos sem oxigênio.
Como foi o experimento
As calêndulas foram mantidas em estufa no verão e no inverno de 2023. Os pesquisadores combinaram concentrações de zero, 10%, 20% e 30% de digestato com diferentes níveis de irrigação. Depois da colheita, foram examinadas flores, folhas, raízes e a parte aérea das plantas, além da composição bioquímica das flores.
As melhores respostas apareceram, de modo geral, com concentrações entre 20% e 30% e irrigação adequada. O excesso do composto reduziu a biomassa e a quantidade de flores. Tânia Forster, professora da Unicamp e orientadora da pesquisa, afirmou que “Doses moderadas proporcionaram os melhores resultados”.
O cultivo com digestato também alterou a presença de proteínas, lipídios, açúcares solúveis, carotenoides e compostos fenólicos. O aumento do betacaroteno foi superior a 250% em comparação com plantas cultivadas sem o biofertilizante. O verão favoreceu açúcares e carotenoides, enquanto o inverno contribuiu para a estabilidade dos pigmentos.
Destinação para o resíduo
O bagaço equivale a cerca de 20% a 25% da massa da uva processada. A produção mundial desse resíduo é estimada entre nove milhões e 13 milhões de toneladas por ano. Para Luiz Eduardo Nochi Castro, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, o material contém fibras, açúcares, compostos fenólicos, antioxidantes e pigmentos naturais, o que permite buscar novos usos.
As análises não identificaram arsênio, chumbo, mercúrio ou selênio no digestato empregado. Também foi observada melhora na fertilidade do substrato. A calêndula tem interesse para as indústrias de alimentos e cosméticos.
A adoção em larga escala ainda exige avaliações sobre viabilidade técnica e econômica, custos, logística e integração com vinícolas ou empresas que já trabalham com digestão anaeróbia. A equipe pesquisa ainda o uso de antioxidantes, compostos fenólicos, açúcares e pigmentos do bagaço em alimentos, cosméticos e outros produtos.







