Baleias, focas, leões-marinhos e elefantes-marinhos percorrem grandes distâncias para voltar às praias, baías ou placas de gelo onde nasceram e dar à luz. Esse comportamento, chamado de filopatria reprodutiva ou fidelidade ao local, permite que os animais reutilizem ambientes conhecidos durante os ciclos de reprodução.
A estratégia está associada à previsibilidade. Para Luís Felipe Tuon, professor do Colégio Oficina do Estudante, em Campinas, retornar a um local já utilizado reduz o custo de procurar novas áreas. Carol Braga, professora do Foco Medicina Vestibular, no Rio de Janeiro, afirma que ambientes com abrigo, condições adequadas para os filhotes e boas chances de reprodução favorecem a permanência dessa prática ao longo das gerações.
Como funciona a orientação
A localização dos berçários depende de vários sinais. Os animais podem perceber o campo magnético da Terra por meio da magnetita no cérebro e identificar características magnéticas de praias e baías. Cheiros da colônia, formato da costa, acústica submarina e correntes marinhas também participam da navegação.
A tendência de voltar pode ter uma base genética, mas a experiência reforça a rota. Em cetáceos, como baleias e golfinhos, a mãe conduz o filhote na primeira migração, transmitindo o caminho por aprendizado cultural.
Os locais de nascimento precisam oferecer proteção contra predadores, condições ambientais favoráveis e baixo gasto de energia para as fêmeas. Um exemplo é a baleia-jubarte, que tem filhotes em águas quentes de Abrolhos. A temperatura ajuda animais que ainda não desenvolveram uma camada espessa de gordura, enquanto a ausência de orcas permite maior proteção. Nesse período, a mãe pode jejuar durante a amamentação.
O nascimento simultâneo de muitos filhotes também pode diminuir o risco individual de predação. Tuon resume esse efeito ao afirmar: “Se 10 mil filhotes nascem juntos, a chance de o seu filhote ser comido diminui”.
A fidelidade ao local varia entre as espécies. Baleias-jubarte, baleias-francas e elefantes-marinhos apresentam forte associação com a área de origem. Golfinhos oceânicos e focas-caranguejeiras, por outro lado, demonstram comportamento mais flexível.
Risco para os berçários
Mudanças climáticas e interferências humanas podem transformar uma vantagem evolutiva em ameaça. A elevação do nível do mar pode reduzir praias usadas para descanso ou nascimento; o aquecimento dos oceanos modifica as condições das áreas reprodutivas; e a diminuição do gelo marinho afeta espécies dependentes dele.
A deterioração rápida dos locais tradicionais pode provocar aborto espontâneo, abandono de filhotes, hipotermia e ausência de ovulação nas fêmeas naquele ano. Por isso, a proteção precisa incluir os berçários, além das rotas de deslocamento.
Entre as medidas citadas pelos especialistas estão a criação e fiscalização de áreas protegidas, o controle do tráfego marítimo e das atividades pesqueiras, a redução da poluição e o monitoramento contínuo das populações. Tuon também defende áreas de proteção ambiental marinha sazonais em berçários, como o Parque Nacional dos Abrolhos, limites de velocidade e distância para embarcações durante a época de cria e a proibição de exploração de petróleo e de ruído sísmico nesses períodos.







