BRASÍLIA — O Cerrado ocupa todo o Distrito Federal e enfrenta aumento do desmatamento, mudanças climáticas, secamento de nascentes e pressão da ocupação irregular. A avaliação é do professor Reuber Brandão, do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB) e integrante da Rede Biota Cerrado, no Dia Nacional do Cerrado, celebrado em 11 de setembro.
Segundo Brandão, o bioma é a savana mais biodiversa do planeta e um patrimônio coletivo. O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupa mais de 200 milhões de hectares e corresponde, em média, a 22% do território brasileiro. Também é conhecido como berço das águas, por contribuir para a formação de nascentes, lagoas e rios que abastecem as principais bacias geográficas do país.
O professor afirmou que a taxa de desmatamento do Cerrado é a maior entre os biomas brasileiros e quase o dobro da observada na Amazônia. Para ele, parte da sociedade ainda considera a vegetação nativa uma área destinada à derrubada para a implantação de plantações.
Efeitos sobre a água
No Distrito Federal, as mudanças climáticas tornam o ambiente mais seco e quente, com redução da superfície de água. Brandão citou o secamento de nascentes, como a Olho D’água da Onça, localizada em uma área protegida na fazenda da UnB.
A dinâmica das chuvas do Cerrado concentra a precipitação em uma estação e em um período curto do ano. Com as chuvas, as rochas porosas e profundas permitem o acúmulo de água no solo, que alimenta nascentes, lagoas e rios ao longo do ano. O professor afirmou que o desaparecimento da água superficial e o secamento de nascentes podem indicar crises na oferta de água para Brasília e para o restante do país.
Desmatamento e ações no DF
Dados do Relatório Anual do Desmatamento (RAD), da rede MapBiomas, apontam que o desmatamento do Cerrado no Distrito Federal alcançou 638 hectares em 2023. Em 2024, foram suprimidos 31 hectares, uma queda de 95,1% em relação ao ano anterior e a maior redução proporcional do país.
Em 2025, os dados oficiais consolidados registraram 3 focos de desmatamento. Pela primeira vez, 100% das supressões identificadas foram legalmente autorizadas. A Secretaria de Meio Ambiente do Distrito Federal (Sema-DF) informou que as autorizações estão relacionadas a atividades rurais regulares e à expansão urbana licenciada.
Entre as ações de preservação estão a Fiscalização Integrada, firmada em 2026 com participação da Sema-DF e da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), e o Programa Recupera Cerrado, que direciona esforços para áreas prioritárias, considerando a importância hídrica e o déficit ambiental.
O Programa de Monitoramento de Área Queimada (Promaq), executado pelo Instituto Brasília Ambiental, acompanha danos térmicos em parques e unidades de conservação. O Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) atua na extinção de focos de calor por meio da Operação Verde Vivo durante a estação seca. A Sema-DF também mantém projetos de conscientização e participação popular.
Áreas protegidas e desafios
Brandão apontou como vantagem do Distrito Federal a existência de áreas protegidas, entre elas o Parque Nacional, com mais de 45.000 hectares, e a Estação Ecológica de Águas Emendadas, com mais de 10.000 hectares. Essas unidades ajudam a conter o desmatamento, mas o isolamento de áreas protegidas dificulta a migração da fauna.
A grilagem e a especulação relacionadas à ocupação do território também pressionam regiões vizinhas às unidades de conservação. Para o professor, a preservação depende do reconhecimento da importância do Cerrado e da valorização da vegetação nativa, associadas à qualidade de vida no Distrito Federal.








